Bíblia e Contemplação da Face de Deus



I-A FACE DE DEUS NO ANTIGO TESTAMENTO

O rosto de Deus, na bíblia, significa o seu ser e a sua identidade. Quando a bíblia diz que um patriarca ou um profeta procura o rosto de Deus quer dizer que desejava entrar na intimidade de Deus. Por outro lado, há muitas passagens do Antigo Testamento que falam da impossibilidade de ver a face de Deus.

O livro do Génesis fala de uma experiência do patriarca Jacob, dizendo que durante uma noite inteira ele teve de lutar com um personagem desconhecido. De manhã, diz o texto, Jacob apercebeu-se que se tratava de Deus, pelo que ficou muito assustado e também admirado, pois apesar de ter visto a face de Deus não morreu (Gn 32, 30).

Este relato pretende afirmar que o Jacob teve acesso ao mistério da intimidade de Deus, privilégio que não era concedido aos mortais. Na visão antiga, pensava-se que a transcendência e a santidade de Deus são realidades tão sublimes e distantes que a sua proximidade pode representar uma ameaça para o ser humano que é pobre e pecador.

É expressivo o relato do Livro do Êxodo no qual aparece Moisés pedindo a Deus que lhe mostre o seu rosto. Deus respondeu-lhe dizendo que o ser humano não pode ver o rosto de Deus e continuar a viver. “Não podes ver o meu rosto, disse Deus, pois o homem não me pode ver e continuar a viver” (Ex 33, 20).

Na verdade, o autor quer dizer apenas que Deus e Moisés não são iguais. Deus é santidade e perfeição infinitas, ao passo que o ser humano é imperfeito e pecador. Quando a Bíblia diz que o ser humano não pode ver o rosto de Deus, quer dizer que a pessoa humana não tem capacidade para captar Deus de modo perfeito.

A prova de que estes textos não devem ser tomados à letra, é que o autor, no capítulo vinte e quatro do mesmo Livro do Êxodo, afirma que Moisés viu a face de Deus e não morreu (Ex 24, 10-11). Nesta mesma linha, o Livro do Deuteronómio diz que Moisés foi especial entre os profetas, pois Deus comunicou face a face com ele (Dt 34, 10).

Estes textos pretendem apenas afirmar a grande intimidade que existia na relação de Deus com Moisés. A aparente contradição destes textos não é mais que uma tentativa de afirmar por um lado a total transcendência de Deus e, por outro, a sua presença junto do Homem.

Por vezes a bíblia diz que Deus esconde o seu rosto quando está magoado com os pecados do povo. Estas afirmações querem dizer que a relação de Deus com o Homem está ofuscada. De facto, a palavra hebraica “Paniym” significa rosto e presença. Esconder o rosto é ocultar a presença e a intimidade.

No Livro do Êxodo, Moisés é apresentado como o grande revelador do rosto de Deus, pois ele é o medianeiro privilegiado que actua entre Deus e o Povo Hebreu. A maneira de Moisés revelar o rosto de Deus ao povo consistia em ir encontro de Deus e depois voltar para junto do povo comunicando-lhe a vontade e o sentir de Deus. Isto significa que o portador da mensagem de Deus é uma pessoa que fala de Deus como de alguém com quem acabou de se encontrar.

Eis alguns textos significativos sobre o papel do medianeiro de Deus:  “E Moisés subiu até Deus (Ex 19, 3). Então Moisés desceu de junto de Deus e falou aos anciãos do Povo (Ex 19, 7). Moisés levou as palavras do Povo até junto de Deus (Ex 19, 8). Então Moisés desceu da montanha até à planície onde se encontrava o Povo (Ex 19, 14).

O Senhor chamou Moisés do alto da montanha e Moisés subiu até ao topo da montanha onde conversou com Deus (Ex 19, 20). Depois, Moisés desceu até junto do Povo e disse (Ex 19, 25). Depois, Moisés subiu para receber as tábuas da Lei.  O Povo, aterrorizado, mantinha-se à distância e não quis aproximar-se da nuvem densa a partir da qual Deus comunicava com Moisés (Ex 20, 18-21).

O Povo mantinha-se à distância, enquanto Moisés se aproximou da densidade da nuvem na qual Deus estava presente (Ex 20, 21). Moisés desceu até junto do Povo e relatou as palavras do Senhor e os seus preceitos (Ex 24, 3).

De novo Moisés subiu à montanha cujo pico ficou coberto pela nuvem (Ex 24, 15). Então, Moisés recebeu as tábuas da Lei, as quais foram escritas pelo próprio dedo de Deus (Ex 31, 18). Moisés desceu da montanha, trazendo as Tábuas da Lei, as quais estavam escritas dos dois lados (Ex 32, 15).

Em seguida, Moisés voltou até junto de Deus (Ex 32, 31). Deus disse a Moisés: “Agora vai e conduz o Povo até onde eu te disse” (Ex32, 34). Moisés desceu da montanha, mas não sabia que o seu rosto brilhava em virtude de ter falado com Deus (Ex 34, 29). Este texto significa que o portador da Palavra de Deus leva em si as marcas da mesma Palavra. 


II-A FACE DE DEUS NO NOVO TESTAMENTO

Para Jesus Cristo o face a face com Deus acontece no interior da pessoa. Era isto que São Paulo queria dizer quando afirmou que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5). Na primeira Carta aos Coríntios ele reforça mais esta ideia dizendo que o Espírito Santo habita nos nossos corações como num templo (1 Cor 3, 16). É no íntimo do nosso coração que o Espírito Santo nos põe face a face com Deus Pai que nos acolhe como filhos e com o Filho de Deus que nos acolhe como irmãos (Rm 8, 14-17).

No evangelho de São Mateus, Jesus diz aos discípulos que eles têm o privilégio de aceder aos mistérios do Reino: “A vós foi-vos dado conhecer o mistério do Reino dos Céus, mas aos de fora não” (Mt 13, 11). E São Lucas acrescenta: “Felizes os olhos que vêem o que estais a ver. Na verdade, muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não o ouviram!” (Lc 10, 23-24).

Na verdade, Jesus Cristo é uma expressão privilegiada do rosto de Deus na História. Antes de revelar a face de Deus aos homens, Jesus Cristo comunicou face a face com o próprio Deus: Eis um relato muito bonito de São Lucas: “No momento de ser baptizado, Jesus entrou em oração. Então, o Céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre ele, tendo a forma corporal de uma pomba. Nesse momento, ouviu-se uma voz vinda do Céu que disse: “Tu és o meu filho bem-amado. Hoje mesmo te gerei” (Lc 3, 21-22).

Antes de iniciar a sua missão, Jesus foi consagrado pelo Espírito santo e o Pai declara que ele é o Messias, o filho de Deus. Tal como aconteceu com Moisés, Jesus procurava as colinas e os lugares silenciosos para entrar em comunhão com a intimidade de Deus. O ruído e a dispersão não são boas mediações para nos encontrarmos face a face com Deus: “Tomando consigo Pedro, João e Tiago, Jesus subiu à montanha para orar. Enquanto orava, o aspecto do seu rosto alterou-se e as suas vestes tornam-se brilhantes” (Lc 9, 28-29).

Não é difícil descobrir a associação destes relatos com os relatos do Antigo Testamento que nos falam dos encontros de Moisés com Deus: “De madrugada, estando ainda escuro, Jesus levantou-se e retirou-se para um lugar deserto, a fim de orar (Mc 1, 35). São Mateus diz mais ou menos a mesma coisa: “Tendo despedido as multidões, Jesus subiu ao monte para orar a sós” (Mt 14, 23).

Olhando para os ensinamentos de Jesus, vemos como Moisés e os profetas ficaram muito aquém de Jesus no que se refere à profundidade do conhecimento e da experiência de Deus. Basta olhar para a profundidade deste texto do evangelho de São João para compreendermos o salto de qualidade que a revelação deu com Jesus Cristo:

“Jesus disse a Filipe: “Há tanto tempo que estou convosco e não ficaste a conhecer-me, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como é que ainda me pedes para te mostrar o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim?” (Jo 14, 9-10). Numa outra passagem Jesus fez a seguinte afirmação: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30).

Quando a bíblia diz que Deus nos mostra o seu rosto, não está a falar de um acontecimento exterior. Deus revela-se ao Homem a partir de dentro, pois ele é a interioridade máxima da realidade. Por outras palavras, quando Deus vem ao nosso encontro nunca vem a partir de fora.

A Primeira Carta aos Coríntios diz que o nosso coração é um templo onde o Espírito de Deus habita (1 Cor 3, 16). No evangelho de São João, Jesus diz aos discípulos que a revelação acontece no coração da pessoa humana porque Deus faz uma união orgânica connosco: “Nesse dia, disse Jesus, compreendereis que eu estou no Pai, vós em mim e eu em vós” (Jo 14, 20).

Por ser homem como nós, Jesus é um medianeiro privilegiado entre Deus o Homem como afirma a primeira Carta a Timóteo (1 Tim 2, 5). O medianeiro tem a missão de revelar o rosto de Deus: “Jesus respondeu: eu sou o Caminho a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir ao Pai senão por mim. Se me conheceis, conhecereis também o Pai. E já o conheceis, pois estais a vê-lo” (Jo 14, 6-7).

As palavras e atitudes de Jesus são uma revelação fiel do rosto de Deus. Por outras palavras a fidelidade incondicional de Jesus à vontade de Deus é o meio mais perfeito de ele nos revelar o rosto do Pai. À imitação de Jesus, também nós, os cristãos, estamos chamados a ser no mundo uma revelação do rosto de Deus. É isto que São Paulo quer afirmar quando diz que as comunidades cristãs são o corpo de Cristo (1 Cor, 10, 17; 12, 27). Quando acolhemos a Palavra de Deus no nosso coração, o Espírito Santo consagra-nos para anunciarmos essa Palavra ao mundo.

Enquanto orava, Jesus fazia a experiência do face a face com Deus no mais íntimo do seu coração. Por isso ele era uma mediação privilegiada para revelar o rosto de Deus ao mundo. Quando Jesus falava do seu Pai, as pessoas tinham um pouco a sensação de que ele tinha acabado de se encontrar com o seu Pai do Céu.

No evangelho de São Mateus, Jesus insiste na importância da missão dos cristãos para que o rosto de Deus seja revelado aos homens: “Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens” (Mt 5, 13). Depois acrescentou: “Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre o monte, nem se acende a candeia para a colocar debaixo da mesa, mas sim em cima, a fim de iluminar todas as pessoas” (Mt 5, 14-16).

Como continuadores da missão de Jesus Cristo, os cristãos estão chamados a ser reveladores do rosto de Deus no mundo.


Em comunhão Convosco
Calmeiro Matias

Sem comentários:

Enviar um comentário